Recentes demissões e mudanças nos departamentos de TI acenam para as transformações na carreira do chief information officer
Nos últimos meses, a demissão de alguns importantes CIOs e a extinção do cargo em algumas empresas acenderam um sinal de alerta no mercado. Este tipo de movimento, normalmente, segue um ciclo natural de renovação pelo qual as companhias costumam ou precisam passar. Mas algo chamou atenção: em alguns casos, não houve substituição do executivo e as áreas ganharam status de gerência. O que era para ser um processo comum se converteu em um ponto de cautela.
Diante da situação, InformationWeek Brasil saiu em busca de explicações. Estaria a profissão de chief information officer (CIO) perdendo relevância? As demissões dos líderes de TI, muitos em posição de vice-presidência, representariam "apenas" cortes para reduzir custos durante a crise? Haveria uma nova mudança no perfil do profissional procurado pelas corporações? Ou estariam as companhias dando menos importância às questões estratégicas? Perguntas complexas para as quais não existe uma única resposta - e, muito menos, simples.
Na visão de especialistas em carreira, executivos que sentiram essa problemática na pele e outros que estão em ascensão no competitivo mercado de tecnologia da informação, as razões são múltiplas. E tudo indica que este movimento ainda pode fazer mais vítimas. O efeito crise não é um consenso, sendo, em algumas ocasiões, citado como uma relação muito pontual, não aplicável a todos os exemplos. "Sentimos que a TI virou um setor em destaque. Estão ocorrendo contratações", afirma Manuela Calumby, consultora da Fesa, empresa especializada em buscar executivos de alto nível. A constatação dela é um ponto positivo e está em linha com o pensamento de Robert Andrade, especialista em recrutamento da Robert Half. Ele acredita que não há risco de o cargo de CIO perder importância e também vê o mercado aquecido para contratações. Mas estas oportunidades são para todos os níveis? Na maioria dos anúncios, a principal demanda é para cargos operacionais.
Realmente, a tecnologia da informação tem mostrado força dentro das organizações, contudo, recentes demissões de CIOs, que atingiram o setor entre o fim de 2008 e o início de 2009, colocam em xeque a relevância do cargo. Ninguém duvida da importância do departamento de TI e do seu potencial para impulsionar a inovação e a redução dos custos, mas o que explica a decisão de uma companhia de se desfazer ou de diminuir o peso do líder de tecnologia? Afinal, o mercado repete em coro que a TI tem de estar alinhada com os negócios e atuar de forma estratégica e proativa.
Assim, o que se espera é que as empresas coloquem no comando chefes estrategistas, com uma visão ampla e analítica. Pergunta-se, então, se o CIO não estaria minimizando toda a sua capacidade. "Se não comprova que a TI e ele agregam valor, dificilmente, as empresas vão manter um profissional como este. Ele não é apenas um CIO, precisa ser capaz de assumir outras responsabilidades", dispara Sergio Lozinsky, consultor de tecnologia e gestor empresarial, ressaltando que estes executivos, muitas vezes, desfrutam os mesmos benefícios que seus pares da diretoria, além do alto salário.
Fator crise
Até o momento, não há pesquisa no mercado que forneça estatísticas sobre qualquer tendência de demissão ou que tenha medido e avaliado os últimos casos. Desta forma, fica difícil apontar se mais demissões estão a caminho. Jairo Okret, diretor-sócio da Korn Ferry, acredita que é contínuo o processo de transformação da TI e que a crise pode ter colocado desafios extras, trazendo à vista alguns aspectos e deficiências dos CIOs.
Somado a isto, a terceirização levou as organizações a refletirem sobre o que é fundamental. "A área vem mudando na medida em que as empresas perceberam, nos últimos 20 anos, que parte da TI não integra o core e pode ser terceirizada", comenta Okret. Neste processo de mutação, os executivos ficaram divididos entre aqueles que tinham mentalidade operacional e os que possuíam visão estratégica - essencial para uma corporação, independentemente de estar passando por uma crise financeira como a que o mundo vive.
Mas recessão econômica traz um ponto crítico à carreira de diretores e vice-presidentes. Muitas vezes, sobretudo nas companhias multinacionais, devido a processos de reestruturação, alguns cargos regionais são cancelados. Desta forma, uma diretoria de TI, por exemplo, pode se reduzir à gerência e passar a responder para um executivo que cuide da região de atuação ou ainda para a própria matriz. O que tem de se observar, em casos assim, é se este movimento deixará a TI mais operacional - e, com isso, menos estratégica - ou se as diretrizes não vão mudar.
Manobras desse tipo, em boa parte dos casos, estão ligadas à remuneração. Como lembra Andrade, da Robert Half, a faixa salarial elevada pesa em momentos de reestruturação das multinacionais. "As empresas não precisam mais de um profissional desse nível, mesmo porque houve cancelamento de projetos e a gerência passa a assumir a condução da área", comenta, ressaltando que isto não pode ser generalizado. "Em vez de um CIO para cada país, estabelece-se um regional, o que não significa, necessariamente, que o anterior era ruim", acrescenta Okret.
As crises, como se observa, desencadeiam uma série de questões, que, em momentos de bonança, passam despercebidas. Contudo, as companhias não podem parar. Períodos de turbulência financeira também são encarados como oportunidades, tanto para empresas, que podem ampliar sua participação de mercado, como para profissionais de TI, que podem - e devem - mostrar toda sua capacidade analítica e estratégica.
Afinal, retração econômica pede redução de custo e, historicamente, a TI é vista como a área mais bem-preparada da empresa para apontar os caminhos de contenção de gastos. "Na crise, o CIO tem de estar à frente, dar sugestões. A falta de atitude faz com que desperte a desconfiança de outros executivos, que achavam que a TI não era estratégica e podem acabar confirmando esta tese", avalia Lozinsky.
A análise de Manuela, da Fesa, tem o mesmo viés. Ela aponta que o CIO precisa se mostrar diferenciado e deixar de viver no que ela chama de "ilha isolada" para ter uma maior interface com as demais unidades. "O cargo se aproxima do CFO e CEO", destaca, mostrando a oportunidade que surge em momentos de turbulência.
Na defensiva?
Ademais das questões pontuais, ressalta-se que transformações na carreira do líder de TI se intensificaram nos últimos dez anos e muitas pessoas não se adaptaram ou não tinham o perfil gerencial requisitado. Mais um fator que direcionou as recentes mudanças no papel dos CIOs. "O mercado passou a demandar novo posicionamento, mais pragmatismo para defender suas ideais. Estes profissionais vieram de carreira técnica. Historicamente, a TI é mais defensiva que inovadora no sentido de construir um caminho para trilhar o negócio", ressalta Dorival Dourado Jr., recentemente promovido à vice-presidente da Experian.
Dourado passou cinco anos à frente da TI da Serasa Experian e soube aproveitar as oportunidades que surgiram no caminho. Antes de receber a promoção, que o obrigará a mudar para os Estados Unidos a partir de setembro de 2009, ele comandava o departamento de tecnologia e também coordenava uma área de negócios. Com um perfil mais parecido ao C-level encontrado nos EUA, Dourado faz algumas críticas aos profissionais da área - mesmo sabendo que alguns não as receberão muito bem. "Existe CIO que gosta de se tornar imprescindível para a empresa e, na verdade, ele tem de se preparar para outros voos. A TI dá condições de conhecer e entender todas as áreas e os processos, se o CIO tiver a cabeça aberta e assumir riscos, terá uma visão mais profunda", pontua.
Para ele, é extremamente importante, nos dias de hoje, ter visão holística para identificar a fórmula a ser aplicada levando em consideração valores, cultura e estilo do time. Esta mesma opinião é partilhada por Akret, da Korn Ferry. O especialista afirma que um CIO precisa ter propriedade do que faz e desprendimento para desfazer algo se for para o bem da empresa. "Qualquer profissional precisa aceitar mudanças inesperadas, pois elas virão."
Mais uma vez, então, volta à pauta a necessidade de o CIO atuar como estrategista do negócio. Quem não se adapta ou não acredita neste processo de transformação pelo qual a carreira passou, evidencia Akret, acaba não tendo o mesmo destaque que outros colegas de profissão. "Na crise, o CIO estrategista esteve ocupado em responder os desafios das empresas, como redução de custo, reajustes de contrato. A crise acentua tais necessidades", comenta Okret.
Diante de tal afirmação, faz sentido o que diz David Cardoso, que até pouco tempo ocupava a posição de diretor-executivo de TI, responsável também pela infraestrutura e pelo planejamento da capacidade produtiva da Atento. Para ele, o líder de TI vai assumir (e já assume) outras áreas de negócios. "Eles vão para o conselho e precisam estar no board. É uma tendência", afirma. Quando não há esta interação, o executivo acredita que esse CIO perde em importância e "a principal cabeça da TI volta a ser o isolado gerente CPD."
Cardoso, aliás, tem uma posição diferente das demais já citadas nesta reportagem sobre as recentes demissões no mercado. Ele enxerga em alguns dos movimentos uma mudança - temporária, ressalta - na visão das companhias, que estariam, atualmente, privilegiando o operacional em detrimento do estratégico. Se a teoria de Cardoso for comprovada, ainda que ocorra por um certo período, ela poderia comprometer a competitividade das corporações. "O que manda é o tempo para o mercado. Isso é pontual, é curto prazo", destaca Cardoso.
Apesar de todas as análises e as diferentes vertentes, ainda é cedo para se definir o que, de fato, está ocorrendo com o cargo de CIO. Dizer se este profissional está ou não perdendo importância significa resumir o que tem de ser uma ampla e profunda investigação da carreira do líder de TI. Deve-se, contudo, observar todas as movimentações com atenção. Assim como outras profissões, a de tecnologia da informação também passa por constantes transformações. Vencerão aqueles que estiverem alertas e abertos para os novos caminhos e as oportunidades que surgem.
(IT Web - 11/09/2009)
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